Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.
Segunda-feira, Janeiro 30, 2006
ANÔNIMO I
Agora...
Amo-te agora, pois só este instante etéril é minha certeza. Somente isso, e nada além, a não ser os beijos doces e o começo de algo sem formas. Agora, eu-tu fundidos num encontro. Mistério sem palavras. Adormecido em seu peito, meu corpo frágil e desnudo, cor de neve quente e delirante.
Amo-te agora, pois todo o resto é incerteza. Meu espelho e minha imagem invertida. Cores se complementando num toque e num olhar.
Amo-te e sei do meu acaso, por isso amo-te sem me preocupar com o certo, a forma ou a semântica das palavras perdidas em mim.
Visto minha capa negra e mergulho num universo único e trêmulo como carne e tango, e bolero, e valsa enlouquecida no luar daquele terraço, daquela sacada, corpos nús em fantasia ao vento.
Amo-te e isso me basta para viver esse momento de sentido e significado.
Descubro-me em seu olhar, neste sorriso branco em lábios doces e macios.
Descubro-me abraçado à idéia, ao calor e perfume desta memória.
Amo este amar que quase me transborda!
Agora...
Uma dupla chama queimando a pele em cores múltiplas...
(L. F. Calaça | 30/01/2006)
PS.: Sei, sei... Poemas de amor são ridículos, mas se não fossem ridículos... não tinha tanto poeta na praça! Às vezes é bom... para acalentar a alma, em momentos de solidão.
PS2.: Já escrevi um bocado de coisas nesse meio tempo, mas tô com preguiça de digitar tudo no computador. Com o tempo os textos vão aparecendo.
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 9:15 PM Comments:
Sábado, Janeiro 07, 2006
RETROCESSO AO TEMPO BÁRBARO
ou A DESCIDA
O cravo na lapela.
Minha imagem distorcida na vidraça.
Alegoria de fim de noite e início de quaresma.
Retorno às raízes mortas de uma roseira
tatuada no pé da mesa descoberta.
Pilhas de folhas de papel timbrado.
Não arrasto meu cadáver para além da janela entreaberta.
Caminho descalço sobre o cimento áspero do telhado.
A porta entreaberta batendo como carregando
o fardo último de um poema.
Escrevo desesperado meu último poema transmutado.
Como cobrindo os rastros de palavras inflamadas.
Cambaleio e dedilho os acordes sonolentos
desta última canção e último gorjeio.
O rouxinol atravessado pelos dentes de um gato persa.
Atiro meus alvos com retalhos de seda branca
e misturo as cores de meu corpo
como acorrentado pelos tornozelos
à grande rocha de me arrasta para o fundo.
Um pouco além dos degraus deste terraço.
(L. F. Calaça | 26/12/2005)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 11:25 PM Comments:
MENTIRAS
Sinto-me. Palavras gravadas na pele ainda ensangüentada por cortes profundos de navalha. Sou palavra viva e em chamas. Palavras múltiplas e dissociadas de sentido primitivo. Sou o verbo múltiplo e mutilado. Corpo despedaçado, atirado aos cães, que questionam a existência do mundo. Não me respondo, pois não ha nem haverá conclusão para o que é cíclico. Já deixei de acreditar na possibilidade de ser compreensível. Continuo continuando continuadamente, até que se cessem os instantes sonâmbulos, pois tornei-me palavra vaga e sussurrante. Ainda posso, no entanto, ser cravo branco jogado no despenhadeiro de lábios de vidro. Ainda posso me disfarçar de sacrilégio e desfrutar o gozo vazio das imagens repletas de corpos nus imaginários. Sou lírico demais até para mim mesmo, e me canso facilmente de dizer que não digo coisa alguma. Não há mensagem final para ser resgatada, como remédio ou bálsamo. levanto minhas cinzas do caos submerso e cada vez mais devoro minhas partes ainda suculentas. cadavérico, dedilho notas avulsas no piano de calda apodrecido no jardim de horrores. meu corpo suspenso numa corda invisível já desfez os nós que ligam os ossos cor de cera. Sou boneco de cera, mímico e ventrí
louco. Não há verdade possível, nem mistério. Cansei, e minha garganta arde num latido raivoso e entorpecido. Sinto-me, mas como um hansênico, um leproso sentado de cócoras, esperando o momento de perder as orelhas mutiladas e saltimbancas. Cansei de ser hermético. Este é o meu testamento vivo. Gastem todos os provérbios que consigam se lembrar no momento! Sequer fui alguma vez coisa alguma... Sou imagem petrificada sobre a escada coberta de espumas flamejantes. Já não há respostas para minhas mentiras, nem memória para lembranças solitárias.
Sinto-me. e apenas isso me basta como ilusão e recomeço de uma nova página em branco.
(L. F. Calaça | 26/12/2005)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 11:24 PM Comments: